Falta quem fale à alma do povo brasileiro

Postado por Monique Cardoso, 10 de Setembro 2013


Essa foto foi batida por mim durante a manifestação ocorrida no último sábado, dia 07 de setembro, no bairro de Laranjeiras, no Rio. Cheguei, fui para uma das pontas da barreira policial, me agachei e fotografei. Ao me levantar, comentei com um deles, que não aparece na foto:

- "Pedreira sua profissão". 

- "E eu aqui, em pleno sábado", respondeu.

- "Vocês ganham menos do que a maioria desses manifestantes", disse. 

Um outro falou:

- "Eles são covardes. Escondem o rosto para atirarem pedra em nós e não serem flagrados".

Nisto, chega um policial com garrafa vazia, pedaço de concreto e pedra portuguesa que estavam, segundo ele, na mochila de um manifestante. Muita apreensão entre os policiais, sentida por homens vindos daquelas classes sociais que muitos de nós manifestantes dizemos defender. 

Trato de me distanciar um pouco da barreira de policiais. "Nós não temos medo", gritavam uníssonos os manifestantes. Subitamente, uma chuva de bomba de efeito moral e de gás. Correria para todo lado. Pessoas caindo no chão. Moças chorando. Uma família busca abrigo em posto de gasolina, filhos menores sendo socorridos por voluntários. 

- "Por que eles atacaram?" Indaguei, tentando me recompor. Narinas e olhos ardendo.

 - "Não houve motivo. Ninguém os atacou. A manifestação estava pacífica", responderam os manifestantes. Um deles me falou:

 - "Eu não era uma pessoa ligada a manifestação de rua, até o dia em que participei de uma e vi o tratamento que a polícia dá ao povo. Agora, não saio mais". Lembrei-me do meu filho, arbitrariamente preso recentemente, numa das manifestações de junho na Alerj, pelo batalhão de choque da Polícia Militar, e que hoje tem horror a abuso de poder.

Foi impossível não sentir muito pesar. Por que aquelas pessoas estavam ali? Qual a razão do conflito entre policiais e o povo? A maioria esmagadora dos que protestavam, sem pedra na mão e com o rosto descoberto. Estes, afirmando lutar por um país mais justo, no qual a desigualdade venha a dar lugar à oportunidade de vida para todos. Aqueles, cumprindo ordem, buscando autocontrole face às tensões do momento, procurando preservar a própria vida e reproduzindo, em parte, aquilo que lhes foi passado, fruto de uma cultura bélica, carente de noções elementares sobre a vida num Estado democrático cujas relações sociais são regidas por lei, que devem ser cumpridas antes de todos, como exemplo, pelo agente do poder público.

Pensei nos reais responsáveis por toda aquela desgraça, capaz de jogar seres humanos contra seres humanos, cujo produto final tem sido jornalistas machucados, pessoas feridas e até mesmo cegas, manifestantes presos, policiais atônitos e sem dormir e um fosso enorme sendo aberto dias após dia entre sociedade e Estado.

Os ingleses contam que, na Segunda Grande Guerra Mundial, bastava Winston Churchill se dirigir à nação pelo rádio, que todos sentiam-se encorajados até o mais profundo da alma, apesar das bombas alemães que explodiam casas, ruas e monumentos. 

O Brasil está carente de estadistas que estejam à altura dos desafios do presente momento da sua história. Nossa presidente não consegue falar à alma da nação. Falta-lhe algo que é inato a quem o possui. Suas promessas caem em ouvidos céticos, uma vez que não vêm acompanhadas de metas mensuráveis e cronograma. A situação do Rio de Janeiro talvez seja a mais dramática do país. Aqui, as manifestações estão mostrando o seu lado mais determinado, num contexto em que todos precisamos reconhecer que o Estado está acéfalo. Não há interlocução. Num cenário como esse, a comunicação por parte da autoridade pública tem que ser regular, clara, objetiva e sensível à voz de gente que sempre se sentiu vivendo num país cujo Estado é contra a população.

Pessoas estão reivindicando nas ruas o que é justo. A polícia que tenta conter os manifestantes mais revoltosos não tem o mínimo preparo para lidar com algo nunca antes enfrentado por ela. O lado mais preocupante é que todos estão lidando com o silêncio de autoridades públicas que, até o presente momento, não apresentaram proposta para um país que está em dores de parto, forçando passagem para gerar os filhos da justiça, da igualdade e do direito.

As manifestações de rua podem assumir novo formato. Mais violento, inesperado, com características de luta armada. Há uma tendência em nossa cultura em não nos adiantarmos aos problemas, deixando para fazer amanhã o que deve e pode ser feito hoje. Não vejo como superestimar às ameaças à liberdade democrática que este momento representa para o povo brasileiro. 

Em suma, carecemos de verdadeiros representantes do povo, que deixem a reforma da nossa democracia seguir o seu curso, que não joguem a polícia contra o povo, que não aticem a indignação de quem está nas ruas pedindo -o que a Constituição Federal prescreve e não é cumprido historicamente pelas autoridades públicas-, e que assumam a responsabilidade histórica de ouvir e responder ao clamor justíssimo das ruas.

O que não pode é o Estado estimular o vandalismo, lidando com indiferença com um povo que nas poucas vezes na sua história em que foi às ruas protestar, o fez de modo pacífico, apesar de, em não poucas ocasiões, se sentir governado por vândalos

Antônio Carlos Costa 

Rio de Paz

 


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